Livros empilhados em quase todos os cômodos, tintas escuras que realçam a arquitetura antiga e móveis garimpados indicam logo de cara que esta brownstone do século XIX não é um cenário neutro. Alison Piepmeyer, o marido Zach e os filhos Linus, de oito anos, e Georgie, de quatro, compraram a casa em 2022, quando ela ainda estava em estado precário. Desde então, a família dedica tempo e criatividade para devolver o charme original do imóvel sem abrir mão de marcar cada parede com a própria história.
A poucos passos das ruas arborizadas de Boerum Hill, bairro que fica entre Cobble Hill e Park Slope, o imóvel serve como laboratório de experimentos estéticos e lembranças afetivas. Entre decisões ousadas — como pintar todo o corredor de preto — e soluções práticas — como estofar sofás antigos com tecido externo contra manchas — o casal ilustra como é possível equilibrar beleza, bagunça infantil e orçamento real.
Um lar do século XIX renascido
Construída na década de 1850, a residência chegou ao mercado praticamente implorando por reparos. Tijolos esfarelando, camadas de tinta com chumbo e até montes de insetos mortos fizeram parte do pacote inicial. Mesmo assim, Alison enxergou potencial e convenceu o marido a apostar na reforma longa, que já dura quatro anos e ainda não terminou. A meta é avançar sempre que sobram tempo e verba, sem pressão para entregar um “antes e depois” instantâneo.
Boa parte da restauração concentrou-se em segurança estrutural: eliminação do chumbo, reforço das paredes e revisão elétrica. Só depois disso o casal começou a pensar em estética. Ao preservar imperfeições — como um cano atravessando o hall — eles mantiveram o elo com gerações que ocuparam o endereço antes, reforçando a sensação de continuidade histórica. Essa camada de passado, aliada às memórias que a família está criando agora, ecoa a discussão sobre hierarquia familiar e o modo como a casa reflete dinâmicas entre irmãos.
Paleta ousada e muitos livros
Quem entra encontra logo o corredor pintado com um tom quase preto da Benjamin Moore, contrastando com o papel de parede floral e o espelho garimpado na Target. Para Alison, cores escuras escondem “pecados” das superfícies antigas e ainda conferem teatralidade. O mesmo raciocínio aparece na sala de jantar: paredes pretas emolduram a mesa vintage, câmeras e brinquedos espalhados sem cerimônia.
A biblioteca informal surge em pilhas: livros de arte dividem espaço com HQs e obras infantis sobre o aparador, nos degraus da escada e até ao lado da banheira. A ideia é deixar tudo à mão para que as crianças recorram à leitura espontaneamente, sobretudo em dias frios, quando o tédio bate e faltam atividades de inverno capazes de levantar o astral. O método funciona: Linus costuma adormecer cercado por um curioso mix de livros de receitas e catálogos de arte contemporânea.
Espaços para família e amigos
Na sala principal, o clássico sofá estilo “fainting couch” em veludo azul vira disputado ponto de encontro durante festas. Mesmo pequeno, ele vive lotado de adultos empilhados e crianças, prova de que conforto nem sempre depende de proporções. Para proteger o investimento, Alison recobriu as peças com tecido externo Sunbrella: giz, canetinha e até eventuais vômitos infantis saem com esfregões de Magic Eraser.
A cozinha, estreita a ponto de permitir apenas uma pessoa por vez, foi reformada pelo próprio casal — “não olhe muito de perto”, brinca ela. O truque para evitar engarrafamento é dividir tarefas 50/50. Enquanto um cozinha, o outro entretem as crianças ao som da playlist Disney que Zach criou. Quando o jantar termina, nada de receitas complicadas; às vezes basta uma versão rápida da salada de batata turbinada que vira refeição completa sem sujeira extra.
Cantos de memória e personalidade
No segundo andar, o único banheiro foi renovado do zero. Azulejos verdes da Clé chegam até o teto, lembrando que tons fortes também podem ser relaxantes. Como o cômodo serve adultos e crianças, a organização precisa ser quase coreografada: primeiro banho dos pequenos, depois chuveiros dos pais. Conflitos só surgem quando todo mundo resolve usar o vaso ao mesmo tempo.
O quarto das crianças mostra outra lição de funcionalidade. Os irmãos dividem beliche: Georgie esconde-se no “bear cave” com cortina escolhida por ela; Linus exibe orgulhoso lençóis Minecraft. Ao envolver os dois nas decisões, Alison reforça valores de autonomia e cooperação — abordagem que conversa com os temas de curadoria cultural em alta nos fins de semana, como indica a seleção recente de séries e programas para toda a família.
Detalhes que contam histórias
Do escritório lotado de fitas, papéis e tintas ao armário suspenso que resolve a falta de storage no quarto do casal, cada canto revela experiências do casal: o trinquinho garimpado num mercado de pulgas em Paris, o poster de “Last Stop on Market Street” que lembra a infância das crianças, o chapéu estiloso pendurado perto da porta. Segundo Alison, não se trata de bagunça, mas de um inventário vivo de momentos compartilhados ao longo de 15 anos juntos.
A estratégia de valorizar memórias, aliada ao respeito à arquitetura original, explica por que a casa se tornou ponto de encontro para amigos que visitam Brooklyn. Entre conversas, livros abertos e paredes escuras que abraçam, o imóvel passa a sensação de filme com cenários densos, mas acolhedores — inspiração que o público de Azza Boutique costuma apreciar na busca por ambientes cheios de personalidade.
Mesmo sem previsão para a “obra final”, Alison e Zach seguem avançando, provando que a verdadeira reforma é a convivência diária, onde cada respingo de tinta ou risco de lápis escreve um novo capítulo da história familiar.
