Saber encerrar uma história na televisão continua sendo um dos grandes desafios da indústria. Quando o desfecho não corresponde ao investimento emocional do público, nem mesmo elencos talentosos escapam da avalanche de críticas. É o que ocorreu recentemente com Stranger Things, cuja popularidade no início dos anos 2020 contrasta com o descontentamento gerado por um final que muitos julgam apressado.
No entanto, a série da Netflix está longe de ser caso isolado. Diversas produções, algumas ainda mais emblemáticas, tropeçaram na reta final e deixaram fãs perplexos. Entre falhas de roteiro, reviravoltas questionáveis e escolhas ousadas de direção, o resultado foi o mesmo: a sensação de que performances marcantes foram desperdiçadas. A seguir, analisamos quatro desses encerramentos e como atores, diretores e roteiristas lidaram com o peso da expectativa.
Seinfeld: quando o humor ácido acabou diante de um júri
Durante nove temporadas, Jerry Seinfeld, Julia Louis-Dreyfus, Jason Alexander e Michael Richards dominaram a comédia de costumes com timing impecável. A série foi construída sobre a premissa de “nada acontecer”, mas a desenvoltura do elenco conferia graça a cada trivialidade. No último episódio, contudo, os criadores Larry David e Jerry Seinfeld decidiram levar os protagonistas ao tribunal por violar uma inusitada “Lei do Bom Samaritano”.
O recurso narrativo transformou o capítulo em um verdadeiro show de clipes. Ainda que a estrutura facilitasse relembrar momentos icônicos, a ausência de conflitos inéditos reduziu o espaço para novas nuances de atuação. Jerry e companhia soaram estranhamente estáticos, como se o veredicto viesse anestesiado. Críticos apontaram que o roteiro trocou a usual ironia social por uma moral simplista, deixando a direção sem margem para explorar o carisma do quarteto.
Two and a Half Men: o retorno relâmpago de Charlie Sheen que bagunçou tudo
Charlie Sheen era o motor de Two and a Half Men. Sua saída, após desavenças públicas, levou Chuck Lorre a reconstruir a série com Ashton Kutcher. Kutcher entregou leveza e timing cômico, mas o público nunca esqueceu o hedonismo irreverente de Charlie Harper. No episódio final, Lorre surpreendeu ao revelar que o personagem estava vivo, sequestrado por Rose, devolvendo Sheen à narrativa sem nem exibi-lo em cena.
A decisão foi interpretada como aceno tardio aos fãs, mas gerou ruído dramático. Jon Cryer, sempre elogiado pela consistência no papel de Alan, teve pouco tempo para reagir ao retorno do irmão nas telas. O texto, fragmentado entre metalinguagem e piadas internas, sacrificou as performances em prol de um acerto de contas com o bastidor. O resultado foi um capítulo que pareceu pedido de desculpas meio envergonhado, sem resgatar a química que um dia sustentou a comédia.
LOST: atuação de alto nível perdida em um labirinto narrativo
Matthew Fox, Evangeline Lilly e Michael Emerson carregaram LOST nas costas com interpretações que iam da ação ao suspense psicológico. A direção de Jack Bender mantinha ritmo frenético, sustentado por roteiros de Damon Lindelof e Carlton Cuse que mesclavam misticismo e ficção científica. No entanto, o episódio “The End” gerou confusão generalizada: a linha entre realidade e purgatório ficou nebulosa, diluindo o impacto emocional.
A cena final, em que Jack aceita o próprio destino, ofereceu material dramático denso. Ainda assim, a montagem paralela — encontro do elenco na “igreja” — dispersou a carga dos diálogos. Muitos espectadores concluíram que tudo fora alucinação, o que não corresponde à intenção dos roteiristas. A sensação de quebra de contrato dramático abafou o ótimo trabalho de elenco, semelhante ao que fãs de animações viveram em produções recentes, como o sucesso do estúdio Madhouse em Frieren: Beyond Journey’s End, que provou ser possível equilibrar fantasia e coerência.
Game of Thrones: atores premiados diante de uma temporada acelerada
O oitavo ano de Game of Thrones se transformou em caso de estudo sobre gestão de expectativa. Peter Dinklage, Emilia Clarke, Kit Harington e Lena Headey — todos indicados ou vencedores de prêmios importantes — receberam linhas de diálogo que comprimiam trajetórias desenvolvidas ao longo de oito temporadas. A direção de David Benioff e D.B. Weiss imprimiu urgência sem lapidar motivações, deixando a fotografia e a trilha sonora carregarem emoções que o roteiro não sustentava.
A queda abrupta de Daenerys Targaryen, por exemplo, rendeu a Clarke cenas intensas, mas pouco contexto. Jamie Lannister regrediu, anulando a evolução brilhantemente construída por Nikolaj Coster-Waldau. Já Harington passou boa parte do tempo calado, como espectador do próprio arco. A frustração reacendeu debates sobre derivados; um deles, House of the Dragon, já tem fim confirmado na quarta temporada, segundo informação da HBO.
O legado de finais controversos e a sombra sobre Stranger Things
A sucessão de desfechos problemáticos mostra que nem sempre roteirista, direção e elenco caminham em sincronia. Quando a narrativa emperra, performances competentes, como as vistas em Stranger Things com Millie Bobby Brown e David Harbour, podem perder força diante de soluções pouco orgânicas.
Para o público, a memória afetiva costuma preservar momentos anteriores ao tropeço final. Ainda assim, a probabilidade de maratonar uma série diminui quando o espectador sabe que o desfecho deixa lacunas. No Azza Boutique, leitores relatam repensar o compromisso com produções longas após reviver decepções como Seinfeld ou LOST.
No fim, a questão permanece em aberto: é melhor arriscar um clímax ousado ou encerrar a história enquanto o enredo está no auge? Enquanto showrunners buscam respostas, os fãs continuam analisando atuações e decifrando pistas, seja numa noite temática de anime em Boston, como ocorreu com One Piece, ou revisitando sagas inteiras em busca do episódio perfeito.
