O episódio derradeiro da segunda temporada de Fallout entrega ação, mistério e uma dose generosa de frustração que mantém a franquia viva no imaginário dos fãs. A hora final costura destinos, revela traições e deixa, no ar, a sensação de que a história está apenas começando.
Entre explosões e diálogos afiados, o ponto alto fica por conta das atuações, capazes de dar profundidade às reviravoltas que conectam o seriado a um spin-off pouco lembrado: Fallout Tactics: Brotherhood of Steel. A pista de que a trama seguirá para o Colorado faz do jogo tático de 2001 peça-chave na construção da próxima temporada.
A virada em Colorado e o elo com Fallout Tactics
Quando o Ghoul encontra o cartão-postal jogado na câmara criogênica vazia de Barb, uma frase enigmática — “Colorado foi uma boa ideia” — muda o rumo da série. O estado, raramente explorado nos RPGs principais, ganhou vida apenas em Fallout Tactics, título desenvolvido pela Micro Forté que mescla estratégia e elementos de interpretação. Ali, fica escondido o lendário Vault 0, abrigo das mentes mais brilhantes do pré-guerra, todas conectadas ao supercomputador Calculator.
No seriado, o cartão-postal indica que Barb e Janey podem ter fugido para essa região, o que abre caminho para que Vault 0 seja oficializado no cânone audiovisual da franquia. Caso a sala dos cérebros hiperconectados seja adaptada, a narrativa pode reescrever ou refinar o enredo do jogo, já que apenas a existência da facção Irmandade do Aço do Meio-Oeste e o uso de zepelins são considerados canônicos até agora.
Atuações que sustentam as reviravoltas
Ella Purnell coloca emoção crua em Lucy MacLean, especialmente no reencontro com Maximus, vivido por Aaron Moten. O contraste entre a ingenuidade da moradora do cofre e a dureza adquirida ao longo da jornada se reflete no olhar vacilante da atriz, capaz de transmitir alívio e desconfiança no mesmo quadro.
Walton Goggins, por sua vez, mantém o Ghoul interessante ao equilibrar cinismo e melancolia. A descoberta de pistas sobre Barb não seria tão impactante sem a capacidade do ator de oscilar entre a violência explosiva e momentos de silenciosa contemplação. Já Kyle MacLachlan, como Hank MacLean, brilha no plot twist ao revelar ligação direta com a Enclave. Sua fala contida e sorriso ensaiado deixam transparecer a frieza de quem manipula eventos desde antes das bombas caírem.
Direção e roteiro: como Lisa Joy e Jonathan Nolan conduzem o caos
Com roteiro assinado por Geneva Robertson-Dworet e Graham Wagner, e supervisão dos showrunners Lisa Joy e Jonathan Nolan, a temporada valoriza diálogos curtos, quase episódicos, que simulam escolhas de RPG. A direção de Frederick E. O. Toye e Wayne Che Yip se destaca nos planos fechados que capturam a tensão dos personagens, lembrando o espectador de que cada palavra pode desencadear violência.
A câmara, frequentemente posicionada na altura dos olhos dos protagonistas, cria intimidade numa história repleta de conspirações. Quando Hank revela ter trabalhado para a Enclave ao lado de Steph — ambos casados antes da guerra — a montagem insere flashbacks curtos e secos, evitando melodrama. Essa combinação de escrita precisa e direção pragmática faz as reviravoltas ganharem peso sem precisar de explicações extensas.
O papel do jogo clássico na expectativa para a terceira temporada
Fallout Tactics pode ditar o tom da próxima fase da série, marcada para começar a ser filmada em maio de 2026, com estreia provável em 2027. O game se passa em estados como Kansas, Missouri e Chicago, mas é no Colorado que o enredo apresenta o Calculador e sua falha fatal: a ausência de sistemas de backup para as neuralinks dos moradores do Vault 0, causando dano cerebral irreversível.
No universo televisivo, a produção tem liberdade para manter ou descartar detalhes, transformando Vault 0 em terreno fértil para novas intrigas. A Enclave, sugerida como antagonista principal, pode ter fincado base no Complexo de Montanha Cheyenne, bunker real da Guerra Fria que casa perfeitamente com a agenda clandestina da facção. Caso Barb, Janey e possivelmente Hank estejam nesse local, a dinâmica entre mente científica, poder militar e a busca de Lucy por respostas promete chacoalhar a estrutura dramática.
Vale a pena assistir a Fallout?
Para quem curte ficção científica com pitadas de humor ácido, Fallout se mostra um prato cheio. A segunda temporada não só amplia o escopo geográfico como aprofunda dilemas morais e entrega atuações memoráveis de Ella Purnell, Aaron Moten e Walton Goggins. Mesmo com algumas pontas soltas — entre elas o paradeiro dos experimentos de Hank, o futuro dos Vaults 32 e 33 e a intervenção do Vírus FEV — o seriado da Amazon mantém tensão e ritmo, mérito de uma equipe criativa que inclui nomes experientes como Jonathan Nolan e Lisa Joy.
Enquanto a terceira temporada não chega, revisitar Fallout Tactics pode funcionar como aquecimento para as pistas deixadas no final. A produção de o Azza Boutique seguirá atenta aos próximos passos dessa epopeia radioativa.
